Entrevista Suzana Barelli @suzanabarelli
Cópia de inquilino entrevista
Entrevista Suzana Barelli @suzanabarelli

Postado em: 23 de junho de 2022 • 5 min

Suzana Barelli é colunista do Paladar (Estadão).

 

inquilino vinhos: Olá, Suzana. Muito obrigado pela sua disponibilidade em bater um papo conosco. Primeiramente, como você chegou no mundo dos vinhos? Como foi a sua “iniciação”? [risos]

Suzana Barelli: Eu que agradeço a oportunidade. Adoro conversar sobre vinho! Vou tentar resumir o meu batismo no vinho. Em meados da década de 1990, eu era repórter de economia da Folha de S.Paulo quando veio o Plano Real e a secretaria de redação decidiu apostar nas pautas que hoje chamamos de estilo de vida, comportamento, consumo. Criaram uma página, publicada todos os domingos, que se chamava “Os Pecados do Capital”. Todos os domingos tinha sete matérias nesta página. Em “Ira”, um economista ou um político falava mal de alguma coisa ou de alguém; Em “Gula”, tinha um texto com um empresário que gostasse de cozinhar; em “Preguiça”, alguma coisa de viagem e assim por diante, com todos os pecados. E o vinho entrava nestas pautas.

Lembro bem quando a Secretaria de Redação me chamou para conversar e me propôs escrever esta página, que seria lançada. Na época, eu fiquei bem contrariada, não entendia nada destas coisas, adorava o mundo da economia; mas também achava que não era hora de sair da Folha. E um convite da secretaria não se nega. Na segunda-feira, aceitei o convite. Logo das primeiras reportagens sobre vinho, eu descobri que gostava do assunto…

 

inquilino vinhos: Acompanhamos sua coluna no Paladar há algum tempo e gostaríamos de parabenizá-la pelo excelente trabalho. Na sua opinião, qual é a parte mais difícil de se trabalhar com vinhos no Brasil, e por quê?

Suzana: Obrigada pela leitura atenta. Conforme a área do vinho que trabalhamos, há as suas dificuldades e as suas vantagens. Eu, por exemplo, jamais trabalharia com importação de vinhos. No jornalismo especializado, talvez o mais difícil seja que há uma linha muito tênue entre o trabalho dos jornalistas e das demais áreas correlatas. O jornalista tem um rigor na apuração que nem todos têm. A história de ouvir os dois lados, de checar as fontes. E atualmente como todo mundo escreve de vinhos, tem muita informação no mínimo equivocada. A quantidade de textos falando de um Malbec super complexo que harmonizou bem com um peixinho é enorme, para citar um exemplo. Mas isso é parte de um mercado ainda novo e em formação.

 

inquilino vinhos: Pegando carona no seu exemplo do Malbec, os vinhos do novo mundo são os absolutos favoritos do brasileiro, principalmente os que começaram a beber vinho há pouco tempo. Você acredita numa mudança no padrão de consumo, dando espaço a produtos nacionais?

Suzana: O consumidor, principalmente o iniciante, escolhe o vinho pelo preço ou por indicação de conhecidos. Ele tem muito medo de “errar” nesta escolha. Como os vinhos de alguns países do Novo Mundo têm preços competitivos e são de fácil acesso, como os rótulos chilenos e os argentinos, eles são muito procurados. As associações de vinho destes dois países também investem fortemente na promoção e em eventos em que o consumidor pode provar os vinhos. Se ele prova e gosta, ele compra.

Acho que este é um caminho que a indústria nacional também deveria seguir. Sou convidada para muitos mais eventos de vinhos destes países do que de vinhos brasileiros, por exemplo.

Mas independentemente disso, o vinho brasileiro vem conquistando o seu espaço e já é a segunda maior origem de consumo. No ranking da Ideal Consulting, em primeiro lugar estão os vinhos chilenos, depois os brasileiros e em terceiro os argentinos. E o aumento do consumo do vinho brasileiro ocorre porque são vinhos que vem ganhando qualidade e o consumidor vem reconhecendo isso. Hoje, o preconceito com o vinho brasileiro é bem menor, mas, infelizmente, ainda existe.

 

inquilino vinhos: É sabido que tanto o consumo de vinhos, como o consumo de vinhos finos brasileiros têm apresentado expansão nos últimos anos. Quais entraves você enxerga para a manutenção desta tendência para os próximos anos?

Suzana: Acredito no crescimento do consumo de vinho brasileiro, tanto os finos como os de mesa. Primeiro pela qualidade, que é crescente. Não dá para afirmar que todo vinho brasileiro é bom, assim como não dá para dizer que todo vinho francês é maravilhoso. Mas tem vinhos brasileiros muito bons. Atualmente os rótulos brasileiros têm uma vantagem extra que é o preço. Toda a alta do dólar e dos custos internacionais, ainda mais com os reflexos das restrições da pandemia, tornaram o produto importado mais caro. Sobre os entraves, o maior são as questões de logística e de matéria-prima. Em 2020, muitas vinícolas brasileiras não conseguiram atender a demanda porque não tinham garrafas para envazar seus vinhos ou por falta de caixa de papelão para o transporte.

 

inquilino vinhos: Quais projetos e iniciativas referentes ao comércio no Brasil (seja de vinhos nacionais ou importados) você tem acompanhado que lhe interessam?

Suzana: Eu simpatizo muito com os projetos de sustentabilidade no vinhedo – a Guatambu, por exemplo, tem um painel solar enorme – e também aqueles que se preocupam com a redução do uso de produtos de síntese nos vinhedos e nas vinícolas. Sei que o clima no Sul do Brasil dificulta muito a viticultura orgânica, mas valorizo os projetos que procuram ter um uso mais consciente dos produtos químicos e simpatizo com aqueles produtores que evitam ao máximo os agrotóxicos.

 

inquilino vinhos: No seu dia-a-dia, fora do trabalho, costuma consumir vinhos brasileiros?

Suzana: No meu dia-a-dia, eu consumo vinho. E, entre eles, claro, consumo vinho brasileiro. Sou uma apaixonada por espumantes e muitos dos rótulos brasileiros têm um lugar cativo na minha adega. Se eu pudesse abriria uma garrafa por dia… Mas, para mim, o concorrente do vinho brasileiro não é o importado, é o refrigerante, o uísque, a vodca. Uma das coisas muito legais do vinho é a diversidade, o que inclui também a diversidade de terroir e de países distintos na elaboração de vinhos.

 

inquilino vinhos: No Brasil, observa-se uma certa formalidade no consumo dos vinhos, que não é observada em outros países, principalmente no Velho Mundo, onde o consumo não se concentra em determinados segmentos socioeconômicos. Você acredita numa quebra desse paradigma no Brasil? O que pode ser feito para acelerarmos esse processo?

Suzana: Eu trabalho muito para quebrar este paradigma. Lembro uma vez que arregalaram os olhos quando eu disse que decantava o vinho em uma jarra, que não precisava de decanter. Como jornalista, procuro sempre ter um texto mais didático e explicativo, para tornar o consumo do vinho mais simples e acessível. Claro que tem situações específicas que justificam toda esta pompa para o vinho, mas elas são poucas. Em geral, o vinho pode e tem de ser visto de uma maneira mais simples.

 

inquilino vinhos: Encontramos algumas vezes em seus conteúdos, menções aos trabalhos de mulheres no mundo do vinho no Brasil, sejam elas enólogas, vinhateiras, donas de winebars, etc. Num setor onde boa parte da força de trabalho é masculina, você tem observado um maior envolvimento de mulheres? Quais os principais desafios enfrentados?

Suzana: Algumas vezes só (risos)! Eu gosto muito do tema de mulheres e vinho e falo bastante disso. Primeiro porque é a minha realidade. Quando comecei, principalmente, perdi a conta de quantas vezes fui a única mulher nos eventos. Brinco que nunca acompanhei tanto o futebol, porque em um almoço ou jantar com vários homens, o futebol sempre entra como tema. Ainda bem que muitas mulheres estão entrando neste mundo, tanto como jornalistas, mas principalmente como sommelières e enólogas. E, sim, ainda há muito preconceito em relação ao nosso trabalho.

 

inquilino vinhos: Quais iniciativas lideradas por mulheres você recomendaria aos nossos leitores acompanharem e se aprofundarem?

Suzana: Tem dois nomes internacionais que são referência para mim. A primeira é a inglesa Jancis Robinson. Ela é uma ótima degustadora, tem vários livros publicados, entende muito. A outra é a Madeleine Puckette, da Wine Folly, que teve a sabedoria de divulgar o vinho de maneira muito visual, com muitos desenhos e gráficos. E sempre gosto de lembrar que o champanhe só é champanhe pelas viúvas da região. A viúva Clicquot é a mais conhecida, mas não é a única. E sua história mostra que as mulheres estão no vinho há muito mais tempo e revolucionando a sua elaboração.

 

inquilino vinhos: Suzana, muito obrigado pela gentileza e pelas respostas. Desejamos tudo de bom para você, e nos falaremos em breve! 🙂 

 

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